A Tragédia Reencontrando a Realidade

Vivemos, mundialmente falando, uma grave pandemia que constitui, de certa forma, em tragédia sobre vidas, em primeiro lugar, economia e perspectiva de futuro, embora também possamos identificar sinais a serem levados em consideração para o pós-crise.

Mas esse período que se seguirá à crise decorrente do COVID-19 exigirá de todos um reencontro com a realidade, sob pena de não aprendermos com os erros do passado.

A woman wears a protective face mask as a precautionary measure against coronavirus disease (COVID-19), in Sao Paulo
Foto: Amanda Perobelli/Reuters

O primeiro aspecto nesse sentido é a constatação de que cabe à força de trabalho, sempre socialmente combinada, trazer à existência bens e serviços. O trabalho humano é dimensão ineliminável de todas as sociedades, sob quaisquer modos de produção. Quando empresas vêm, na atual conjuntura, a público para dizer que “sem a retomada da atividade econômica quebraremos” é inevitável concluir que o trabalho humano está na base da materialidade que nos sustenta. De aplicativos a robôs, passando pela nanotecnologia, a atividade laboral é a que tudo produz.

Uma segunda dimensão com a qual nos reencontramos diz respeito ao papel da ciência e da pesquisa (também elas resultado do dispêndio de energia física e mental de quem trabalha) para a produção de tudo que nos é necessário. Negligenciar a importância do conhecimento científico e dos investimentos em pesquisa representa um custo econômico, político e social inestimável.

Por fim, mas não menos importante, parece que recuperamos a lucidez segundo a qual “O que esta pandemia revela é que existem bens e serviços que devem ficar fora das leis do mercado” (frase de Emmanuel Macron, presidente da França). O neoliberalismo, notadamente suas medidas de desregulamentação de direitos sociais e privatizações, começa a ser posto, na prática e a duras penas, sob forte questionamento.

O mundo não será o mesmo após essa crise. Não há nisso novidade, pois, pela dialética, sabemos que o movimento é permanente. Mas a direção que as mudanças terão dependerá, em larga medida, de nossa capacidade de garimparmos tantos reencontros que a presente crise nos oferece, desde que façamos “análise concreta de situações concretas” (Lênin).

COVID-19 E SITUAÇÃO DE LEITOS HOSPITALARES E DE UTI EM UBERLÂNDIA

A crise decorrente do COVID-19, que ganhou proporções de pandemia, impacta, mundialmente, os sistemas de assistência à saúde. Um dos aspectos relacionados a isso é o número de leitos, de leitos UTI e de respiradores disponíveis em cada localidade. Este artigo se dispõe a refletir sobre um desses aspectos, anunciado no título acima.

hospital
Foto ilustrativa: Marcello Casal JR/ABr

A Organização Mundial da Saúde (OMS) sustenta, com base científica, que são necessários 3 leitos hospitalares para cada 1.000 habitantes. Considerando que a população de Uberlândia é de cerca de 700.000 habitantes, precisaríamos ter no Sistema Único de Saúde (SUS), que abrange rede pública e rede privada, pelo menos 2.100 leitos hospitalares. Os dados disponíveis no TABNET do DataSUS informam que há apenas 1305 leitos em nosso município (defasagem de quase 38%, ou seja, 795 leitos). Isso se não considerarmos a atendimento de âmbito regional que aqui acontece…

Em termos de leitos de UTI, a disponibilidade em Uberlândia não chega a 200, ao passo que a recomendação pelos critérios da OMS seria de 315, o que significa uma defasagem da ordem de 36,5%, caso assumamos 200 como a base de cálculo. Teríamos que aumentar em 57,5% o número de leitos de UTI – repito: levando-se em conta apenas a população que reside na cidade, sem computar o atendimento regional.

Por isso é que o conhecimento científico e decisões políticas responsáveis devem estar na base das orientações claras à população, visando seu efetivo engajamento para a adoção de providências que minimizem a contaminação pelo COVID-19, dentre as quais se destacam a higienização e a drástica redução de circulação e aglomeração de pessoas, ou seja, o isolamento social.

As recentes declarações e medidas da Presidência da República e os alinhamentos pontuais que a elas se deram são, além de irresponsáveis, uma afronta à inteligência e um sério risco à saúde pública. Se não lhes oferecermos resistência e lucidez, contribuiremos, por omissão ou apoio, para um cenário de picos muito altos, e em pouco tempo, com relação às curvas de contaminação, casos graves e óbitos em virtude do COVID-19.