A Covid-19 e o Sistema Único de Saúde – Parte 2

Ana Cristina Soares Ferreira*

Segundo o texto do prof. Edilson Graciolli em seu blog “ Covid-19 e Situação de Leitos Hospitalares e de UTI em Uberlândia” há uma defasagem no município de Uberlândia de 38% de leitos ou 795 leitos. Isto, utilizando-se como base a proporção sugerida pela O.M.S, baseada em pesquisas, de 3 leitos para cada 1.000 habitantes. Um planejamento para a disponibilização de novos leitos seria fundamental para a população uberlandense.

De acordo com a reportagem do G1 “Unidades de saúde de Uberlândia e Araguari aumentam números de leitos de UTI para combater coronavírus” de 01/04/2020, em Uberlândia há 200 leitos de UTI: 40 leitos são do Hospital Municipal, 40 leitos do Hospital de Clínicas da Universidade Federal de Uberlândia (HC-UFU) e outros 120 de hospitais da rede particular. Recentemente a Prefeitura reformou instalações do Hospital Santa Catarina que está funcionando como um anexo do Hospital Municipal para atender casos de Covid-19, com a previsão de mais 20 leitos de UTI além do espaço de enfermaria. Segundo a reportagem, a prefeitura estuda montar um hospital de campanha no Estádio Parque do Sabiá e, se necessário, dispor também dos leitos de UTI do Hospital do Câncer. No entanto a prefeitura informou a dificuldade de aquisição de respiradores, essenciais no tratamento da Covid-19 em casos graves.

 “ Teve óbitos confirmados e tem mais pacientes aqui na UTI com suspeita”, informou outra profissional da enfermagem.

 “Eu não consigo acreditar que isso está acontecendo comigo! O ar está pesado para respirar …” disse um enfermeiro chorando por estar com suspeita de Covid-19. Ele trabalha numa UTI de um hospital denominada ‘UTI de Covid’, pois todos os pacientes internados são suspeitos ou confirmados desta doença.

Sabe-se que um dos grandes problemas do S.U.S. é o subfinanciamento e o sucateamento. Um sistema público e universal de qualidade está na contramão das leis de mercado que têm lucros estratosféricos com a doença. Há falta de estrutura de trabalho aos profissionais de saúde para uma melhor prestação de serviços à população. Os trabalhadores muitas vezes não dispõem de condições materiais adequadas, de Equipamentos de Proteção Individuais (E.P.I.s) necessários e em quantidade suficiente, em jornadas exaustivas e com sobrecarga de trabalho. Não é incomum os baixos salários e atraso nos pagamentos destes servidores da saúde. Outro problema é a rotatividade de gestores e descontinuidade de ações nas mudanças de prefeitos, governadores e presidentes da república. Muitas chefias estão despreparadas e têm o cargo não por habilidade técnica, mas por indicação política.

Precisamos estar atentos aos riscos de desmonte do S.U.S. Houve grandes retrocessos, como a emenda constitucional 95, congelando os gastos em Saúde por 20 anos, verba que já representava apenas 3,8% do PIB no Brasil. Além disso, houve mudanças no financiamento da Atenção Básica que antes era per capita, e agora será por pacientes cadastrados nas unidades de saúde, reduzindo ainda mais o financiamento. Além disso, foram descredenciados mais de 8.000 médicos do Programa Mais Médicos, fundamentais para suprir o déficit destes profissionais na Atenção Básica.

atibaia
(Foto: Prefeitura de Atibaia)

“Estamos trabalhando com restrição de equipamentos de proteção individual” e “só colhemos exame para o diagnóstico para Covid-19 de pacientes com sintomas graves” relataram outras profissionais de enfermagem, sugerindo a falta de condições seguras de trabalho e a subnotificação dos casos para esta doença.

“Nosso município não está realizando os exames para Covid-19 nos laboratórios daqui, as amostras estão sendo encaminhadas para outros municípios”.

“Por enquanto está tranquilo, porque não temos muitos casos. Mas não sabemos se aumentará e se o sistema vai dar conta”.

Que o enfrentamento da Covid-19 nos traga as reflexões necessárias para avaliarmos o nosso sistema de saúde. Que possamos identificar onde avançamos e o que necessita de melhorias. Que possamos pensar com amor e compaixão em nossos profissionais de saúde e nos pacientes que tanto necessitam de um atendimento humanizado e resolutivo em saúde, atendendo ao que lhes é de direito.

* Ana Cristina Soares Ferreira é enfermeira, mestre em Políticas Públicas de Saúde pela Fiocruz e professora de Saúde Pública no Instituto Educacional Maria Ranulfa – Fatra.

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