Em meio à pandemia, o poder de criação da ciência

Enquanto Bolsonaro corta bolsas e zomba do poder da ciência, universidades públicas protagonizam as pesquisas brasileiras sobre o coronavírus

  Isley Borges*

O mundo da ciência brasileiro tem se desencantado nos últimos anos. Desde a saída de Dilma Rousseff, o orçamento para a ciência e a tecnologia tem sido significativamente reduzido. No início de 2017, mais precisamente em março, o orçamento de custeio do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação foi reduzido em 44% (3,2 bilhões) do previsto na lei orçamentária daquele ano. Comparado ao orçamento empenhado em 2014 (7,3 bilhões), representa menos da metade.

Após a chegada dos terra-planistas no governo federal em 2019, iniciou-se o ano com um corte de 42%. Em 03 de abril do ano passado, a Folha de São Paulo, em reportagem intitulada “Corte orçamentário de 42% em ciência e tecnologia preocupa entidades”, noticiou que o corte preocupava entidades científicas que afirmavam que áreas importantes como o enfrentamento de pandemias emergentes, a busca por novas fontes de energia e as pesquisas em segurança alimentar seriam duramente afetadas.

Em meio à pandemia global do coronavírus, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) publicou a portaria 34, em 09 de março de 2020, documento que alterou os critérios de distribuição de bolsas para os programas de pós-graduação. Entidades científicas, reitorias e a Frente Parlamentar pela Valorização das Universidades Federais se pronunciaram, manifestando preocupação com a possibilidade iminente de cortes de bolsas de pesquisa. Por sua vez, a CAPES defendeu-se assegurando não ter feito qualquer corte.

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As universidades públicas são linha de frente nas pesquisas sobre o Covid-19 no Brasil. (Foto: Agência de Notícias do Paraná)

De fato, a CAPES não fez corte direto, mas propôs um modelo de (re)distribuição de bolsas incompatível com a realidade científica brasileira. Na prática, a medida que poderia ajudar a diminuir as assimetrias e desigualdades existentes no sistema, está cortando bolsas de programas, principalmente os de notas três, quatro e cinco, e remanejando essas bolsas para programas de maiores conceitos. É válido salientar que os programas de menores conceitos são maioria no país, especialmente nas regiões Nordeste e Norte, e cumprem um papel fundamental na produção científica brasileira. É conveniente destacar, ainda, que os programas conceituados, avaliados com notas seis e sete, são aqueles atrelados às ciências duras, que contam com financiamentos público e privado desde que o mundo é mundo.

O samba brasileiro, é certo, revela por vezes as nossas contradições. Como compôs e cantou, em 1980, há 40 anos, João Nogueira: “força nenhuma do mundo interfere no poder da criação”. No início de março deste ano, um grupo de cientistas, liderado por uma mulher, a médica Ester Sabino, da Universidade de São Paulo (USP), uma universidade pública, sequenciou o genoma de dois casos de coronavírus no Brasil, como noticiado pelo Estadão. Admite-se, hoje, também, que o nosso Sistema Único de Saúde, o SUS, completamente público e gratuito, é a única alternativa possível em um país que sofre das mais acentuadas desigualdades econômicas e sociais. Sistema que, é bom destacar, foi pensado por inúmeros cientistas, pesquisadores e professores, que defenderam e trabalharam por um modelo que prezasse pela universalidade, pela integralidade, pela equidade, pela descentralização e pela participação social.

A ciência brasileira evidencia, contra a correnteza de cortes e negatividades, o poder de suas criações. Criações que dão conta de um vírus microscópico, mas destruidor. Criações que emergem como “uma luz que chega de repente, com a rapidez de uma estrela cadente”, como no samba de Nogueira. No cenário turbulento pelo qual passamos, as universidades brasileiras estão criando aplicativos para auxiliar no combate ao coronavírus. Mesmo à distância, pesquisadores produzem conteúdo embasado cientificamente orientando a população a saber quais medidas tomar a partir de sintomas, como publicou a Agência Brasil.

Mais recentemente, nesta semana, no dia 06 de abril, a Universidade Federal de Uberlândia (UFU), em seu portal de notícias, divulgou que a universidade receberá verba do Ministério da Educação (MEC) para realizar testes de coronavírus em Uberlândia e Patos de Minas. O investimento chega a R$2,8 milhões e será possível graças ao trabalho de docentes pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas e do Instituto de Biotecnologia da UFU. São em momentos assim que acredito “em uma força maior que nos guia, que está no ar”, como fala o samba. A força da ciência, que impacta a vida de milhares de brasileiros.

Mesmo com cortes orçamentários, remanejamentos de bolsas e ódio do governo federal à ciência, docentes, pesquisadores, cientistas continuam contando com os poderes de suas criações. Seja sequenciando o genoma do coronavírus, seja alertando a população para a importância do SUS, seja elaborando modelos de testes para o vírus, a ciência avança contra a pandemia, enquanto o governo deixa evidente o seu despreparo.

Precisamos, a partir de agora, refletir sobre a criação de um novo governo, pois este já não serve pra mais nada.

*Isley Borges é presidente da Associação de Pós-Graduandos da Universidade Federal de Uberlândia (APG/UFU), doutorando em Estudos Literários (ILEEL/UFU), jornalista da ADUFU – Seção Sindical e produtor cultural.