Buracos nas ruas, um problema recorrente e com causas bem reais

Prof. Edilson José Graciolli [1]. 

A paisagem urbana de muitas cidades no Brasil, talvez a maioria delas, sempre inclui buracos por ruas e avenidas, ano a ano, a cada período de chuvas. Nas campanhas eleitorais, principalmente se municipais, é comum candidatos atribuírem ao prefeito, ou prefeita, em exercício a responsabilidade por eles. Será que se deve atribuir exclusiva, ou principalmente, a essa ou àquela gestão na Prefeitura esse tipo de problema? Ainda que prefeitos(as) possam ser parte da situação, não haveria outras causas, ou determinações, para isso?

Penso que chefes de Executivos Municipais e seu secretariado possuem parcela de responsabilidade, principalmente porque não exigem de empresas que ganham licitações para as operações tapa-buracos a qualidade do serviço pelo qual recursos públicos são, em última análise, destinados a quem é pago para realizar esse tipo de reparo. A fiscalização pelo poder público deveria ser mais enérgica quanto às especificações técnicas e garantias do que se faz com nossos tributos e impostos.

Entretanto há causas muito mais estruturais do essa que acabo de mencionar. A realidade é que Uberlândia, a exemplo de tantos municípios, se formou com base em processos de especulação imobiliária. Centenas, talvez milhares, de imóveis foram forjados pelo que se chama “grilagem”[2], isto é, um processo de artificial envelhecimento de escrituras de propriedades, em geral obtidas por meio de esquemas fraudulentos, como “esquentar” glebas, utilizando-se a mesma matrícula para oficializar grandes áreas de solo urbano que foram, de forma oportunista e a produzir danos ao patrimônio público, resultado de invasões de terras devolutas por poderosos do ponto de vista econômico.

Nossa cidade conheceu, por décadas, tais práticas. Loteamentos e outros empreendimentos habitacionais resultaram disso e foram autorizados sem que as devidas condições estruturais de pavimentação, escoamento de águas pluviais, dentre outras, estivessem plenamente contempladas. Por isso, muitas ruas se transformam em riachos durante uma chuva, mesmo que esta não seja tão forte ou de longa duração.

A isso, aí sim, se somam serviços mal feitos, pessimamente fiscalizados, formando um verdadeiro ralo por onde escoam recursos públicos, mas que enriquecem empresas e seus proprietários, às custas do que deveria ser bem administrado.

Assista ao vídeo no canal do Professor Edilson sobre o assunto.

Notas:

[1] Professor de Ciência Política e Sociologia da Universidade Federal de Uberlândia; Presidente Municipal e membro do Comitê Estadual do PCdoB.

[2]  Documentos guardados por um tempo sob a ação de grilos ficam amarelados, pois os dejetos desses insetos reagem dessa forma. Daí a expressão “grilagem”, um processo de envelhecimento de documentos novos e fraudulentos.

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